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quinta-feira, 26 de março de 2020

Morar a bordo - você se adaptaria?

Foto: Veleiro Escola Oceano VI num final de tarde na Praia do Tinguá

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Por Marcelo Visintainer Lopes – Escola de Vela Oceano
Instrutor de Vela e Consultor Náutico

A ideia de morar a bordo de um veleiro encanta muita gente. Cada vez mais e mais pessoas estão deixando o conforto dos seus lares para viverem ancorados em alguma baia paradisíaca.
É a vida corrida da cidade e a busca por um estilo de vida mais saudável e ligado à natureza que acaba levando as pessoas para próximos do mar.

E você se adaptaria ao espaço pequeno e ao confinamento de um veleiro?

Boa parte dos que tentam acaba se adaptando, mas se você puder descobrir isto antes de largar seu emprego e vender tudo seria bem mais sensato.
A dica que para economizar tempo e dinheiro é não fazer muitos planos sem antes ter a certeza que vai se adaptar.
Conheço diversos casos de pessoas que investiram anos de suas vidas construindo seu próprio veleiro e que acabaram desistindo por não conseguirem se ambientar.

É melhor não correr riscos...

Pensando assim podemos elaborar um plano para a realização dos primeiros testes.
Saibam que a lógica e a razão que coloco aqui não é o caminho normal das pessoas que compram seu primeiro veleiro.
Por falta de pesquisa e instrução e agindo mais com o desejo do que com a razão, o pessoal acaba encontrando um caminho mais difícil e penoso.
No final ainda acham que foi uma “baita experiência ter passado por tudo aquilo”. Puro consolo, pois tudo poderia ter sido feito em menos tempo e com muito menos dinheiro.

O pior de tudo é dar dicas no Youtube de como fazer tudo errado!
Esta é a parte mais triste, mas para quem nada conhece, parece um experiência incrível.

Fico pensando como isto pode ainda estar acontecendo até hoje. Este sofrimento era atribuído aos nossos antepassados que por falta de informação disponível nas bibliotecas, tinham que descobrir as coisas pela dor.

“Pegar dicas” com quem começou errado e acha que fez a melhor coisa do mundo só confundirão a sua cabeça e o induzirão aos mesmos erros.

Frases do tipo “não existe certo ou errado” ou “é errando que a gente aprende” não existem na vida no mar.
No mundo profissional que eu vivo, desconheço este tipo de afirmação. São apenas um pedido de desculpas pelos erros cometidos.

“Só existe o certo”. O errado passa longe da minha experiência.
“É acertando que a gente não quebra, não sofre e não desiste”.

Meu papel é exatamente este: abreviar o sofrimento, o degaste emocional e o seu precioso tempo.
Um outro exemplo de planejamento equivocado é a pessoa querer se habilitar com a Marinha (Arrais, Mestre e Capitão), antes mesmo de saber se vai gostar de velejar.

Qual o sentido disto?
Conheci diversas pessoas que tomaram este dispendioso rumo e que nunca subiram em um barco, ou por falta de coragem, ou por falta de dinheiro ou por terem descoberto que enjoam caminhando sobre um pier.

Será que o veleiro vai combinar com a sua personalidade?

1. Conheça todas as tarefas
Preparar as velas, verificar o funcionamento do motor, abastecer, lavar, cuidar, mergulhar para realizar limpezas e manutenções no fundo do barco, e aí vai...  Claro que você pode passar longe da maioria destas tarefas mais pesadas pagando pelos serviços.

2. Saiba que a pressa de chegar ao destino não faz parte do jogo
O barco à vela navega lentamente e devemos entender que isto nunca vai mudar.

3. Teste suas próprias limitações (medos, traumas etc.)
Inclinação, balanço, ondas e o vento forte, velejar à noite, não avistar terra firme etc.
Podemos evitar estes itens com soluções simples como velejar só de dia, próximo à costa e em locais abrigados e não sair quando a previsão estiver ruim. O fato é que você terá exposto uma série de limitações e que talvez inviabilizem o seu futuro a bordo.

4. Resiliência - vários planos... A, B, C, D...
Em função da meteorologia, muitas vezes somos obrigados a fazer outra escolha de destino, principalmente para pernoitar em segurança e com conforto.
Por isto é normal que tenhamos em mente a possibilidade de ir mudando de plano a cada nova mudança meteorológica.

Como testar tudo isto na prática?
O teste mais eficaz e direto é fazendo um curso de vela oceânica mais extenso, onde você terá mais chances de enfrentar situações que o tirem da zona de conforto.
Cursos rápidos de um dia não lhe mostrarão a realidade.
Velejar com amigos também não serve. Em um dia lindo de sol e com pouco vento você vai se apaixonar de qualquer jeito. Vai ser um passeio bacana que só o deixará com água na boca.
Para funcionar melhor o amigo teria que ser um velejador experiente e com um dia mais nublado e ventoso. Mesmo assim ele deverá demonstrar, de forma real, como funcionam as coisas no barco.
Alugar um veleiro (charter) com um marinheiro profissional também não é das melhores opções, já que o objetivo do charter é “encantar” você para que retorne em breve.
Se você conversar sério com o skipper (comandante do charter) explicando os seus objetivos talvez ele possa ajudar de uma outra maneira.
Outra opção seria contratar a mesma locação, porém com um serviço extra de instrução de vela e, da mesma forma, deixando claro os seus objetivos.
É aconselhável você buscar boas referências do profissional ou da empresa de charter antes de realizar a contratação.

Quem são as pessoas que sonham morar a bordo
Elas querem ter um contato mais direto com a natureza e levar uma vida mais tranquila, longe da correria da cidade.
A mudança de rumo é o plano da grande maioria, já que os empregos tradicionais já não trazem tanta satisfação pessoal.  Muitas estão insatisfeitas com suas carreiras e o veleiro parece ser a solução mais rápida para sair da rotina e mudar de vida.
Mudanças de rumo são comuns na vida de um velejador. Fazemos isto constantemente, seja para melhorar as condições de navegação, seja para se afastar de algum perigo eminente, seja para se abrigar de uma tempestade ou simplesmente para se adaptar a uma mudança na direção do vento.
Em geral são aposentados, profissionais liberais com flexibilidade de agenda, investidores, trabalhadores remotos, trabalhadores por escala, prestadores de serviços náuticos, solteiros, casados, mais velhos, mais jovens, casais com filhos, casais sem filhos, casais com pets, irmãos, amigos, funcionários públicos próximos da aposentadoria e aí vai...

Deu para perceber que não existe nenhum pré-requisito específico?
Você também é um forte candidato a morar a bordo, basta tentar!